O encontro com mulheres de movimentos organizados da sociedade civil na tarde desta quinta-feira, 26, no Cine Metrópolis (campus de Goiabeiras), encerrou a visita de um dia da ministra das Mulheres, Márcia Lopes, ao Espírito Santo. Ela veio ao estado para uma agenda que incluiu o lançamento do Atlas das Mulheres do Espírito Santo e um evento na Assembleia Legislativa com o tema Todos por todas: pela garantia da vida de meninas e mulheres.
Na Ufes, a conversa com os movimentos sociais foi organizada pelo Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher do Estado do Espírito Santo (Cedimes), órgão vinculado à Secretaria Estadual das Mulheres (SESM). A ministra foi recebida pela vice-reitora da Ufes, Sonia Lopes, que integrou a mesa do evento ao lado de parlamentares das esferas federal, estadual e municipal e outras representações femininas.
A vice-reitora destacou o papel da Ufes na produção de conhecimento para atender a demandas sociais: “Eu estou muito feliz e emocionada com a presença da ministra, das parlamentares e de todas vocês dos movimentos sociais aqui na Universidade. A Ufes faz ensino, pesquisa e extensão, produz formação e conhecimentos científicos que caminham junto com as demandas da sociedade. A gente está aqui para isso. Queremos ouvir vocês, junto com a ministra, e fazer parte desse grande movimento para pôr fim a essa situação muito crítica de violência contra a mulher”.
Sonia Lopes falou de eventos recentes na Universidade, citando o lançamento do banco vermelho e o seminário Sobre Mulheres e Feito por Mulheres, que reuniu professoras das mais diversas áreas para falar sobre suas produções científicas. “Congregamos várias áreas de conhecimento da nossa Universidade, mulheres que pesquisam temas que falam de mulheres, assim como outras iniciativas que estão sendo feitas na nossa Universidade por gestores e gestoras, num grande movimento que está lutando cotidianamente contra essa situação de invisibilidade da mulher”, disse.
Na foto acima, a partir da esquerda: ao microfone, Thâmara Trancoso (presidenta do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher do Estado do Espírito Santo – Cedimes); Adriana Rosa dos Santos (Conselho Nacional de Defesa dos Direitos da Mulher); Ana Paula Rocha (vereadora Vitória/PSOL); Márcia Lopes (ministra); Sonia Lopes (vice-reitora); Jack Rocha (deputada federal PT/ES); Iriny Lopes (deputada estadual/PT); Açucena (vereadora Cariacica/PT); Karla Coser (vereadora Vitória/PT); Fabiana Malheiros (subsecretária Estadual de Políticas para as Mulheres).
Após ouvir os relatos e receber por escrito as demandas dos movimentos de mulheres, a ministra afirmou: “Esses documentos vão ser lidos por mim e pelas áreas técnicas do Ministério para que nós possamos fazer o diálogo de uma agenda. Vamos dialogar com a saúde, com a educação, com a habitação, com todas as áreas de políticas públicas”.
Protocolo nacional
A ministra falou, ainda, da assinatura do Protocolo de Intenções para Prevenção, Acolhimento e Enfrentamento da Violência contra as Mulheres nas Instituições Públicas de Ensino Superior e na Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, que ocorreu em evento conjunto do Ministério da Educação e do Ministério das Mulheres, no último dia 25 de março, na Universidade de Brasília (UnB). O ato reuniu organizações sociais e representantes das universidades federais de todo o país – a Ufes esteve representada pela vice-reitora. O documento foi assinado pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes).
“Foi um ato histórico! Um protocolo com todas as universidades federais, estaduais, municipais, institutos federais para que todos os currículos de graduação e pós-graduação tenham um recorte de gênero e raça nos currículos; para que tenhamos ‘cuidotecas’ (espaço público, gratuito e seguro, voltado ao acolhimento e cuidado de crianças de 3 a 12 anos) para que as mulheres possam estudar”.
Demandas capixabas
Dentre as demandas apresentadas pelas capixabas durante o evento na Ufes, estão políticas públicas que “cheguem às mulheres pretas do interior e de todo o Espírito Santo”, como destacou a representante do Coletivo de Fortalecimento e Empoderamento da População Negra do Sul do Estado do Espírito Santo (FPNES) Luciana Souza. “Precisamos que nossos corpos não sejam alvo de violência”, afirmou ela.
Outra reivindicação, trazida pelo Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), é o fim da invisibilidade das mulheres no processo repactuação dos acordos firmados para mitigar os danos ambientais, sociais, econômicos e a compensação do que é irreparável após o rompimento da barragem de Mariana, em Minas Gerais, em 2015.
As mães de pessoas com deficiência do movimento Mães Eficientes Somos Nós falaram à ministra das dificuldades da maternidade atípica. “Hoje somos máquinas de cuidados, a maternidade atípica é exercida por muitas mães-solo, que são invisibilizadas. Não podemos nem adoecer ou fazer exames preventivos porque não temos quem fique com nossos filhos. Precisamos que o governo defina políticas públicas específicas para amparar as mães atípicas”, afirmou Lúcia Mara Martins.
As mulheres sindicalistas, representadas pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), apresentaram duas reivindicações centrais: o fortalecimento da campanha contra feminicídio e a defesa do fim da escala de trabalho 6x1 (seis dias de trabalho para um de descanso) sem redução de salário, proposta que está no Congresso Nacional.
“Nós temos que acabar com essa escala 6x1, essa é a posição do presidente Lula e de todos nós do governo”, respondeu a ministra. Ela destacou as dificuldades que a proposta enfrenta no Congresso Nacional, lembrando o perfil de diversos parlamentares que estão se posicionando contra outras propostas, por exemplo, a equiparação da misoginia ao crime de racismo. Após a aprovação no Senado na última terça-feira, a equiparação vai à votação na Câmara dos Deputados.
Fotos: Ana Oggioni
Universidade Federal do Espírito Santo