Relatório inédito revela perfil e atuação de gestores e técnicos negros na administração pública capixaba

15/12/2025 - 17:05  •  Atualizado 15/12/2025 17:39
Texto: Adriana Damasceno     Edição: Thereza Marinho
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Foto do I Encontro de Gestores(as) e Técnicos(as) Negros(as) do Espírito Santo

“O evento não foi um fim em si mesmo, mas o ponto de partida para a construção de um futuro no qual a presença negra na gestão pública vá além de cargos periféricos e ocupe espaços estratégicos de decisão”. Esse trecho compõe o Relatório do I Encontro de Gestores(as) e Técnicos(as) Negros(as) do Espírito Santo, documento pioneiro que apresenta um panorama detalhado da presença de profissionais negros e negras na gestão pública do Espírito Santo, reunindo informações sobre perfil, áreas de atuação e esferas institucionais, além de proposições construídas coletivamente pelos participantes.

Produzido pelo conjunto de instituições e organizações realizadoras do evento, sob coordenação da Secretaria de Ações Afirmativas e Diversidade (Saad/Ufes), a publicação traz informações do encontro realizado no campus de Goiabeiras em 6 de dezembro de 2024, que reuniu profissionais da Ufes, do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), da Rede Estadual de Educação do Espírito Santo, de órgãos e institutos estaduais e representantes do movimento negro. Embora não traga o número absoluto de inscritos, os percentuais apresentados evidenciam um grupo diverso e representativo de profissionais negros e negras, oferecendo um retrato inédito de sua atuação nos diferentes níveis da gestão pública do Estado. Veja a íntegra do relatório no arquivo anexado abaixo.

Em 14 páginas, o relatório mostra que metade dos participantes atua na gestão estadual, 26,2% na municipal e 23,8% na esfera federal. Os dados também revelam o perfil racial do público: 72,5% das pessoas inscritas se declararam pretas e 23,8, pardas. Quanto à identidade de gênero, 73,8% dos participantes são mulheres e o recorte etário indica predominância de pessoas em fase madura da trajetória profissional, com 38,8% na faixa entre 40 e 49 anos.

Outro dado relevante mostra que a área da Educação concentra 55% das inscrições, tornando-se o principal espaço institucional em que profissionais negros e negras estão inseridos e atuam em funções técnicas, de coordenação e de gestão. Segundo o secretário de Ações Afirmativas e Diversidade da Ufes, Gustavo Forde, esse resultado indica que escolas, secretarias e serviços educacionais têm sido portas de entrada significativas para a atuação de pessoas negras no Estado. Setores como cultura, saúde, justiça, governança, planejamento e áreas técnicas diversas somam 26,2% dos participantes.

“Essa distribuição mostra que a presença negra é transversal, alcançando diferentes campos da administração pública, mas ainda sem atingir uma massa crítica significativa em áreas estratégicas, como orçamento, gestão central, planejamento ou administração superior. Isso reforça a importância de políticas afirmativas, redes de apoio e espaços de formação para ampliar essa participação”, destaca Forde.

Propostas

O relatório apresenta um conjunto de propostas voltadas à continuidade e ao fortalecimento da articulação criada no evento. Entre os encaminhamentos, destaca-se a criação de um núcleo provisório responsável por organizar as próximas ações coletivas, estruturar modelos de organização (como associação ou observatório) e conduzir o planejamento do próximo encontro estadual, previsto para ocorrer em meados de 2026, com indicação inicial dos municípios de Viana ou Piúma como possíveis sedes.

O documento também aponta para a necessidade de instituir encontros periódicos, que podem assumir formatos mensais, quinzenais, semanais ou itinerantes, conforme avaliação do grupo. Outra proposta é a criação de um repositório de informações internas com fotos e descrições dos integrantes, facilitando o conhecimento mútuo e a formação de redes de apoio.

No campo das ações estratégicas, o relatório sugere o fortalecimento de iniciativas intersetoriais, a ampliação da oferta de formações continuadas (incluindo cursos afrocentrados e conteúdos jurídicos voltados à atuação institucional), e o reforço das conexões entre áreas como Saúde, Educação e Igualdade Racial. As propostas incluem, ainda, medidas para ampliar a presença negra em espaços de decisão, fortalecer conselhos, aprimorar mecanismos institucionais de proteção e valorização profissional e consolidar redes que contribuam para a promoção da igualdade racial na gestão pública capixaba.

“Em conjunto, essas propostas estruturam um plano de ação que busca dar continuidade ao movimento iniciado pelo encontro, fortalecendo vínculos, qualificando práticas e ampliando as condições para que profissionais negros e negras ocupem espaços estratégicos e contribuam de forma ainda mais significativa para as políticas públicas do Espírito Santo”, avalia Forde.

Articulação

Para ele, a produção do relatório é fundamental porque registra, pela primeira vez, a voz coletiva de gestores e técnicos negros e gestoras e técnicas negras da administração pública capixaba, organizando de maneira sistemática dados, experiências e desafios que até então estavam dispersos e oferecendo uma base sólida para o aprimoramento de políticas públicas.

“Mais do que um documento, ele representa o início de um processo contínuo de articulação. O encontro que o originou foi inédito e mostrou que há força e disposição para avançar. O relatório nos dá ótimas expectativas porque evidencia que, quando nos encontramos e nos reconhecemos, abrimos caminhos para ampliar a presença negra em espaços estratégicos de decisão e construir um futuro institucional mais justo e diverso”, conclui.

Fotos: Secom/Ufes

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