Encerrando a série especial Ufes por Elas: iniciativas que transformam vidas de mulheres capixabas, que neste mês de março apresentou projetos da Universidade voltados à promoção da equidade de gênero, o destaque é para o Ambulatório Multidisciplinar de Diversidade de Gênero (AMDG/Ufes), coordenado pela professora do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia (campus de Maruípe) Neide Boldrini. Com dez anos de atuação, o projeto desenvolve um modelo assistencial multidisciplinar voltado ao acompanhamento de pessoas em processo de transição hormonal, assegurando atenção integral e promoção da saúde. A iniciativa atua diretamente na vida de mulheres trans e pessoas transfemininas assistidas pelo serviço, com foco na redução de vulnerabilidades e na defesa dos direitos humanos.
Dentre as principais frentes de atuação, estão a garantia de acesso seguro à terapia hormonal, o monitoramento de efeitos metabólicos e a oferta de escuta qualificada e suporte psicológico. O ambulatório também oferece orientações sobre sexualidade, fertilidade e prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (IST), contribuindo para a redução de complicações clínicas e do sofrimento psíquico, além do fortalecimento da autoestima e da identidade corporal. Boldrini destaca que o projeto busca promover o "aumento da adesão ao cuidado em saúde”, reforçando a importância do acompanhamento contínuo e baseado em evidências.
Desde sua criação, o projeto já atendeu mais de 400 pessoas trans, tornando-se espaço de referência no cuidado humanizado e integrado. O acesso aos acompanhamentos ocorre por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBSs), responsáveis pelo atendimento inicial e encaminhamento ao AMDG/Ufes, que está localizado no Complexo Ambulatorial Multirreferenciado do Hospital Universitário Cassiano Antônio de Moraes (Hucam-Ufes), em Maruípe.
Segundo Boldrini, a pactuação do projeto com o Ministério da Saúde e com a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) representou um marco na trajetória do ambulatório, permitindo maior organização e estruturação do serviço. A partir desse processo, houve ampliação das discussões sobre gênero no campo da saúde da mulher, redução da estigmatização nos atendimentos, capacitação de profissionais para acolhimento qualificado e integração da atenção ginecológica específica para homens trans com útero e colo do útero. “É um projeto assistencial, de equidade, de saúde pública, de direitos humanos. É um projeto de formação qualificada profissional”, avalia.
Cuidado respeitoso e cientificamente embasado
A articulação entre ensino, pesquisa e extensão é outro pilar da proposta. Estudantes de graduação, bem como médicas e médicos residentes, participam da assistência supervisionada, o que contribui para a formação de profissionais capacitados para o cuidado respeitoso e cientificamente embasado. “O conhecimento produzido no ambulatório, materializado na publicação de artigos científicos, reverbera para além da unidade ao promover a redução do preconceito institucional e a ampliação do acesso qualificado em diversos serviços da rede de atenção à saúde da mulher”, destaca Boldrini.
Ela afirma que o objetivo do projeto é, nos próximos anos, consolidar o ambulatório como referência regional em assistência, ensino e pesquisa em diversidade de gênero, articulando assistência qualificada, formação profissional e produção científica. No eixo assistencial, está prevista a ampliação do acesso à hormonioterapia de forma segura e protocolada, com monitoramento clínico sistematizado e avaliação longitudinal de desfechos metabólicos, cardiovasculares e funcionais. “Este eixo será estruturado com acompanhamento clínico regular, avaliação de composição corporal por bioimpedância e aplicação de testes de força muscular, permitindo análise integrada de possíveis repercussões metabólicas e autonômicas”, explica a professora.
Já no eixo formativo, as perspectivas incluem capacitação contínua de residentes, graduandas e graduandos para atendimento humanizado e tecnicamente qualificado, inserção estruturada do tema diversidade de gênero na formação médica e fortalecimento de uma abordagem transdisciplinar envolvendo ginecologia, endocrinologia, fisiologia, saúde mental e reabilitação. “Queremos consolidar uma linha permanente de pesquisa em saúde da população trans dentro da Universidade, contribuindo para a formulação de protocolos baseados em evidências, redução de vulnerabilidades em saúde e promoção de cuidado integral, ético e inclusivo”, conclui Boldrini.
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Fotos: AMDG
Universidade Federal do Espírito Santo